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Encontros casuais no Caminho das Descobertas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 26.06.09

 

Nos anos 90 programaram-se Ciclos de Cinema na RTP 2, penso que já o disse aqui. E documenta´rios culturais magníficos, sobre realizadores, escritores, pintores, fotógrafos.

É impossível não fazer comparações com a aridez da época actual: abre-se a Rtp2 e já pouca diferença vemos em relação à Rtp1 ou à Rtp Memória. Fala-se de cultura e de arte de forma superficial e pretensiosa, muitas vezes para se promoverem produtos banais, não é o produto genuíno.

As elites culturais não acreditam na capacidade de observação das pessoas em geral. Mas é minha convicção que as pessoas sabem instintivamente quando estão perante uma obra de arte ou quando estão perante um produto banal. Quando o produto é bom, genuíno, as pessoas reagem sempre. As elites culturais é que geralmente torcem o nariz.

É certo que hoje muitos blogues vieram substituir esse lugar cultural na televisão. Mas ainda sinto falta desses programas.

Foi num desses Ciclos de Cinema da Rtp2, dos anos 90, que vi A Canterbury Tale dos ingleses Michael Powell e Emeric Pressburger.

O fascínio foi imediato. Por isso espero conseguir transmitir aqui o que pensei senti, o que encontrei, também eu, nesse Caminho das Descobertas.

A primeira ideia que aqui gostaria de deixar é que se trata de um obra de arte. Do início ao fim. Na imagem, entre o poétido e o documental, a acompanhar personagens caídas ali por acaso, e o campo inglês, as suas aldeias típicas e as planícies onduladas. Na sequência narrativa, na forma como as cenas se entrelaçam, às vezes de uma forma imprevisível, porque a vida também é imprevisível.

E aqui começamos a ver o génio destes realizadores da Archer! Há muitas formas de contar uma história. E de a levar por diante, com personagens e diálogos bem encadeados. Banal.

E há a forma criativa de nos meter numa história, tal como se também nós fôssemos apanhados na história, tal como acontece na vida real. Porque é assim que nos sentimos, muito próximos daquelas três personagens, a tentar perceber o que se passa à medida que vamos avançando com elas. É assim na vida real e será assim neste Caminho das Descobertas.

Por isso é que eu digo: estamos perante uma obra de arte genial.

 

Podem dizer-nos que este filme não resiste ao tempo. Não creio. Aqui vi cenas que poderiam perfeitamente ser filmadas hoje:

A cena dos tanques militares que surgem repentinamente numa ondulação da planície, por entre a vegetação. Saídos do nada!

E outra cena: a rapariga percorre as ruas da cidade bombardeada. Onde antes existiam prédios, agora vemos enormes crateras cheias de destroços. Lembro-a em câmara lenta, mas não sei se foi assim que foi filmada. Ao longe, vê-se a Catedral, pelo menos na imagem que registei de memória.

E ainda outra: todos se encaminham para a Catedral, e tudo filmado como num documentário.

 

Mas voltemos ao início, se é que aqui há um início e um fim, porque também na vida real não há propriamente um início nem um fim, a não ser o das nossas vidas mortais.

A ideia que fica é que este Caminho é afinal o nosso caminho, sem uma lógica propriamente definida, nem planos prévios (e quando os há a vida encarrega-se de os alterar), sem certezas nem GPS que nos valham, apenas a nossa capacidade de o sonhar e de o ir calcorreando, em correrias entusiasmadas (mais no início), em caminhadas mais calculadas (ali pela meia idade) e a apalpar bem o terreno (mais lá para diante).

É assim que se sentem estes peregrinos-sem-o-saber, sim, eles não sabem (nem nós ainda) que são, também eles, peregrinos num Caminho das Descobertas.

 

O campo inglês e um Caminho de Peregrinos. O filme mostra-nos a sua permanência, em duas cenas que se sobrepõem: uma, os peregrinos medievais, que o atravessam, a caminhar. E logo a seguir, no mesmo local praticamente inalterado, os novos peregrinos, soldados em jipes e tanques. O cenário é exactamente o mesmo, só mudam o tempo (alguns séculos depois...) e as personagens.

 

As nossas personagens: uma rapariga londrina que vai trabalhar numa quinta ali perto; um soldado inglês de licença por alguns dias; um soldado americano. Destes, só o americano queria ir a Canterbury, mas sai na estação errada por engano.

E é aqui, nesta noite, que os três se encontram na estação. E que em breve formarão um trio que, embora improvável, unirá esforços para desvendar um mistério: a rapariga dá um grito inesperado, tinham lançado cola no seu cabelo! Várias mulheres já se tinham queixado do mesmo naquela aldeia, sempre que falavam com estrangeiros (ou estranhos). O homem da cola, como misteriosamente lhe chamam, voltara pois a atacar.

Encaminham-se para o magistrado local, onde apresentam queixa, e aqui começam a reparar que há algo de muito estranho naquele homem. Embora sejam tratados com afabilidade, qualquer coisa os deixa desconfiados. Entretanto, lavam a cabeça da rapariga, a cola custa a sair.

Tudo começa nesta aventura. Também para nós, que estamos tão perplexos como eles. Nada percebemos.

Esta simples aventura, que é vivida com uma curiosidade natural, leva-os a conhecer um pouco mais da história daquele local, do significado mais profundo dos seus valores ancestrais.

E, embora estranhamente unidos naquele Caminho, cada um deles irá percorrê-lo solitariamente, na sua busca pessoal e na sua descoberta. E isso é fascinante. Porque também é assim na vida real. Cada um tem o seu sonho, o seu propósito. Pode encontrar-se com outros como ele, mas é um caminho pessoal.

E vamos percebendo o seu desgosto (a rapariga), a sua ansiedade (o americano) e o seu sonho inconfessado (o inglês).

A rapariga: depois da minha cena preferida, a da caminhada na cidade destruída, em perfeita sintonia com a sua destruição interior, que só percebemos quando ela entra na garagem onde ainda guarda a caravana onde passara um verão com o seu amado. Só percebemos isso quando a vemos limpar o pó e as teias de aranha e o choro convulsivo. E aí compreendemos: ele morrera. À saída, um homem aguarda-a, ali parado à porta da garagem: apresenta-se como pai do Geoffrey. Ela não quer acreditar! Ele está vivo! Vivo!

O soldado americano: já em Canterbury encontra num café, por mero acaso, um colega também de licença, que traz consigo várias cartas da namorada, que andavam perdidas por outras paragens. Vemos o seu rosto iluminar-se, o brilho da esperança no seu olhar.

O inglês: é na própria Catedral onde entra, extasiado, e se aproxima do órgão, também ele magnífico, que o organista o convida, ou antes, desafia, a tocar. O seu sonho realiza-se.

 

 

 

 

Informações interessantes: Como leio na Folha da Cinemateca do Ciclo Os Tesouros de Londres, 25 de Julho de 1996, escrita por Manuel Cintra Ferreira: ... O ponto de partida de 'A Canterbury Tale', ainda segundo o realizador, seria mostrar aos americanos o que era a Inglaterra. 'Onde e com quem iam combater'. E, simultaneamente, explicar aos ingleses quem eram os americanos. Era o tempo em que as forças americanas se acumulavam nas Ilhas Britânicas preparando-se para o Dia D. ...

George Livesey e Deborah Kerr foram convidados para os papéis de, respectivamente, o tradicionalista Thomas Colppeper e da jovem que procura esquecer um desgosto de amor. (A meu ver, foi melhor assim, com actores praticamente desconhecidos. A identificação é facilitada. E, se noutra perspectiva, estas personagens são colectivas, simbolizando a América que vai conhecer a Inglaterra, cenário onde os seus soldados vão combater na 2ª Guerra Mundial, melhor ainda).

 

 

Leitura relacionada (pelo menos para mim): Há um livrinho delicioso de José Gomes Ferreira, Aventuras de João Sem Medo, que utiliza a metáfora e o fantástico para nos falar de ideias, de personagens e de caminhadas, e também muito cinematográfico.

José Gomes Ferreira também aqui nos conduz num outro Caminho de Descobertas.

Há muitas formas de contar uma história e de desenvolver uma ideia.

Ficamos a conhecer um pouco melhor o pensar e sentir português para melhor compreender a nossa própria caminhada.

 

 

 

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publicado às 15:20

Surpresas blogosféricas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.06.09

 

Antes mesmo de continuar a aventura do post anterior, Descobrir a nossa natureza, em que me meti sem ter o fôlego necessário mas fascinada com  o filme que me tem acompanhado ultimamente, A Room With A View, eis que sou surpreendida pela amabilidade de um especialista em Cinema!

João Marchante, no seu Eternas Saudades do Futuro,a destacar este rio como o blogue do dia!

O Eternas Saudades do Futuro tornou-se um dos meus blogues preferidos, uma referência. Dos seus posts sobre Cultura e Arte, é nos de Cinema que me demoro, sobretudo os da Sétima Arte, autênticas aulas de Cinema!

 

A melhor forma de agradecer esta amável surpresa ao João Marchante é dedicar-lhe um filme português, um dia destes.

É que um dos seus posts da Sétima Arte mais desafiadores é precisamente este, Futuro do Cinema Português.

E tem dedicado muitos dos seus posts sobre Cinema a realizadores portugueses: António Lopes Ribeiro (de que ainda vi programas na televisão a preto e branco), Leitão de Barros,Jorge Brum do Canto.

 

 

 

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publicado às 16:00

Descobrir a nossa natureza

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.06.09

 

Volto a colocar a jangada neste rio, às vezes calmo às vezes caudaloso, e ainda ouço a voz da Marilyn, suave e poética: I can hear my lover call... Come to me...

Já não há filmes assim, nem heróis poéticos assim...

Mas há filmes que me acompanham sempre, sobretudo dos anos 80 e 90.

Um que me tem surgido ultimamente, com a sua atmosfera poética e sensual: A Room With A View. Magnífica sequência de cenas, introduzidas como capítulos de um romance.  Magníficas personagens a interagir em cenários  deslumbrantes.

 

A rapariga que foge da sua própria natureza. Mas que vai recebendo indicações.

Ao ouvi-la tocar uma peça de Beethoven ao piano, uma das personagens dir-lhe-á a frase-chave do filme: Se a sua vida vier a reflectir a forma como toca, que vida interessante!

O rapaz que por ela se apaixona: O que aconteceu entre nós é muito raro...

A mãe que às tantas desabafa, desesperada, quando a vê a querer fugir, teimosamente: Já pareces a Charlotte!

O pai do rapaz que zela pela sua felicidade: Porque havemos de acreditar em si se mentiu a toda a gente?

 

A cena mais poética e marcante de todo o filme: o beijo em pleno campo nos arredores de Florença.

Esta cena irá escandalizar a prima solteirona Charlotte Bartlett e marcar para sempre a impressionável novelista, Eleanor Lavish, que a reproduz em livro. A história deste beijo irá surpreendê-los já em Inglaterra quando é lida em voz alta pelo noivo, o tímido e desajeitado Cecil Vyse.

 

Uma breve pausa na história para falar da fotografia e da atmosfera do filme. É James Ivory. E é Florença. E o campo inglês, aqueles jardins...

É verdadeiramente incrível como James Ivory nos consegue transportar para uma época, um ambiente e uma certa excentricidade. Em duas pinceladas coloca-nos nessa Inglaterra campestre, amável, acolhedora, numa família um pouco excêntrica: uma mãe tolerante e permissiva com os filhos, dois irmãos cúmplices, e uma certa espontaneidade genuína na forma como se exprimem emoções, sentimentos e afectos.

 

E é nessa viagem à Itália que a aventura começa. Acompanhamos aquelas duas, Lucy e Charlotte, nessa aventura, que será muito mais do que uma simples viagem, é a descoberta da sua verdadeira natureza (para Lucy) e a possibilidade de aprender a confiar na autenticidade do rapaz (para Charlotte).

Também terá uma influência decisiva no noivo de Lucy, o pobre Cecil Vyse, também ele ignorante da sua própria natureza.

Sim, esta viagem à Itália irá alterar as suas vidas de forma determinante.

James Ivory revela-nos aqui, de uma forma magnífica, a natureza exuberante, esfusiante, calorosa, sensual de Itália. Aqui a atmosfera é de uma natureza diferente: nas praças,  na cor, na luminosidade, e na sua cultura (os jovens apaixonados que chocam o velho Reverendo, mais austero, ou o duelo sangrento em plena praça pública que leva Lucy a desmaiar).

Nenhuma personagem lhe pode ficar indiferente! Nem mesmo Charlotte, que fica um pouco desorientada no meio daquelas ruas medievais que tanto fascinam Eleanor Lavish, a novelista.  (1)

 

Quando (re)virem o filme, reparem bem na troca de quartos inicial: ao ouvir Charlotte queixar-se de terem ficado num quarto das traseiras, o pai do rapaz apressa-se a oferecer-lhes o deles, que não precisam da vista. O rapaz (George) volta atrás para virar o quadro pendurado na parede, onde desenhara um sinal de interrogação.

A cena de Lucy e George (o rapaz) na praça onde ela fora comprar postais é uma das mais poéticas: Lucy desmaia ao ver todo aquele sangue vermelho-vivo, num homem jovem subitamente morto ali à sua frente. Não quer dar parte de fraca, mostra-se sempre altiva, orgulhosa, independente. Debruçam-se na ponte sobre o rio e George lança os postais à água. Estavam sujos de sangue, diz-lhe.

 

Mas voltemos à cena daquele beijo, tão sem-cerimónia, tão espontâneo, e tão genuíno. Beijo que antecipará o regresso das duas a Inglaterra e deixará Charlotte num terrível complexo de culpa, por não a ter conseguido proteger melhor.

Mas Lucy não revela qualquer perturbação. Talvez apenas uma leve irritação com algumas frases mais preconceituosas do noivo (Cecil), sobre as pessoas em geral, irritação que talvez revele uma nova visão das coisas: a sua irremediável diferença.

Aqui ficamos a conhecer melhor Cecil: a sua formatação de "homem civilizado", levada ao limite. Na forma como se exprime, como veste, como se comporta socialmente. Vêmo-lo aqui com todos os seus preconceitos filosóficos e sociais, de quem busca a perfeição e o sublime. Cecil é uma alma que se julga sensível e artística, mas sem o ser verdadeiramente, sem o sentir e viver.

 

Avancemos para a cena em que Lucy dá de caras com George, que mudara de armas e bagagens com o pai para uma pequena casa ali perto, agora convidado do irmão para uma partida de ténis.

E à cena em que Cecil lê em voz alta a descrição daquele beijo apaixonado, na nova novela de Eleanor Lavish. Lucy tenta escapar àquela situação embaraçosa (e fugir da sua confusão interior?), mas George persegue-a e consegue declarar-se: o que aconteceu entre nós é muito raro. Lucy é implacável, tem noivo. George descreve-lhe a natureza de Cecil e a sua impossibilidade de amar verdadeiramente uma mulher, pode tratá-la como uma obra de arte, que se admira e possui, mas sem a conhecer verdadeiramente.

 

Avancemos agora para a cena do passeio de Lucy e Cecil e de um outro beijo. Cecil olha em volta e pede-lhe autorização para a beijar. Lucy sorri, levemente divertida. Este beijo, tímido e desajeitado,  em perfeito contraste com o primeiro.

Mas o maior contraste ainda está para ser revelado! A alegria descontraída dos rapazes, George e o irmão de Lucy, e do excêntrico Mr. Arthur Beebe. Este trio que fora nadar no lago, irá surgir-lhes à frente repentinamente, completamente nu, em correrias divertidas. Este sim, é o maior contraste possível: a natureza no que tem de autêntico e espontâneo, e a fatiota convencional de Cecil que fica sem pingo de sangue! A simplicidade e ausência de artifícios e o protótipo do "homem civilizado".

 

Na realidade, George não é o inverso de Cecil. É apenas o que falta a Cecil para viver e sentir a sua arte sublime. É o "homem sensível", o homem curioso, ávido de filosofia e cultura, de arte e viagens, mas que busca a experiência completa, plena, sorver a vida e saboreá-la com todos os sentidos despertos.

O "homem sensível" vive os afectos: o seu amor filial é enternecedor; e o amor-paixão, quer vivê-lo em plenitude. Segue a filosofia naturalista do pai, de forma lógica: vive de forma autêntica.

E Lucy acompanha-o nesta dimensão, são de naturezas muito semelhantes.

É o que dirá ao pobre Cecil, nessa noite em que desfaz o noivado, nessa súbita despedida que deixa Cecil destroçado. Desculpem-me, mas esta cena é mesmo de partir o coração: o Daniel Day-Lewis  dá-lhe uma consistência e uma vulnerabilidade tal que a cena sempre me toca profundamente. Cecil a limpar os óculos depois de a ouvir dizer as palavras (que ela ouvira a George), que o descrevem assim de forma tão cruel!

 

Lucy é implacável, definitiva. Pensamos que irá aceitar George, mas Lucy escolhe a fuga: já está a pensar em viajar de novo, com duas senhoras idosas que conhecera em Florença e com quem se correspondera depois. Nem mais. E conta à mãe a sua última decisão: mal tome posse do seu dinheiro (herança do pai?) irá viver com uma amiga na cidade.

E é aqui que começamos a ver, em linguagem de cinema, o desenrolar final de uma escolha.

Em linguagem de cinema os "timings" são determinantes para os acasos, a coincidências, os encontros e os desencontros. Porque na vida real também é assim.  (2)

É o amor maternal que a salva desse afastamento de si própria e dos seus afectos. A mãe não tem contemplações, está francamente irritada: Já pareces a Charlotte!

É claro que isto deixa Lucy a pensar, não pode ficar indiferente! Aquelas ideias libertárias e feministas, de uma mulher que apenas desenvolve a sua dimensão social, educação e trabalho, esquecendo as outras dimensões.  (3)

É isto que a mãe lhe quer dizer: Não fujas das outras dimensões, da realização do amor, da paixão, da família, da maternidade, todas as dimensões de uma vida mais plena e gratificante.

Pelo menos foi assim que eu percebi aquele desabafo. Esta mãe é terna e benevolente com os filhos, mas não os infantiliza. Mostra-lhes as opções e os diversos cenários. É a "mulher natural", completa, a meu ver, sem grandes pretensões intelectuais mas terrivelmente sensata, que reúne as diversas dimensões femininas: afectos, prazer, alegria, família, maternidade, vida social, uma vida confortável e equilibrada. Vêmo-la a conviver, a jardinar, a rir. É uma mulher feliz.

 

E tudo parece acontecer por um mero acaso. Lucy encontra o pai de George enquanto espera pela mãe. O filho virá buscá-lo, pois já não faz sentido manterem ali casa. E confronta-a com as suas mentiras, sobretudo a si própria. Lucy assume finalmente o seu amor por George.

Claro que contado assim não tem qualquer poesia. Estou a seguir as cenas de memória. Sim, vi e revi o filme, mas a forma como o gravamos é sempre tão pessoal!

 

 

 

(1) Se até o sombrio Nietzsche não lhe ficou imune! Como leio n' O Consolo da Filosofia de Alain de Botton: ... no Outono de 1876, Nietzsche viajou para Itália e sofreu uma mudança radical de mente. Aceitou um convite de Malwida von Meysenbug, uma rica dama de meia-idade entusiasta pelas artes, a passar alguns meses na sua companhia e de um grupo de amigos numa 'villa' em Sorrento, na baía de Nápoles.

'Nunca o vi tão animado. Ria alto por puro prazer', relatava Malwida a respeito da primeira reacção de Nietzsche à 'Villa' Rubinacci, situada numa avenida arborizada no extremo de Sorrento. ... (Botton, Alain de - O Consolo da Filosofia, Publicações D. Quixote, 3ª edição, pág. 245)

No Cinema, também David Lean nos revela esse fenómeno em A Passage to India mas com um impacto mais intenso e perturbador.

 

(2) Bem, em linguagem de cinema dá-se sempre uma ajudinha aos encontros, não é?, uma batota deliciosa que a realidade não dá, como sabemos por experiência própria.

 

(3) Sobretudo nesta época, transição do séc. XIX para o XX, em que, na mulher, as dimensões familiares ("afecto", "casamento", "maternidade") eram valorizadas, e as dimensões sociais ("educação", "intelecto", "trabalho"), desvalorizadas e às vezes até desprezadas.

 

 

 

Interessante coincidência: Hoje, dia 24, ao espreitar no IMDB para verificar as Tags, descubro que tanto A Room With A View como A Passage To India se baseiam em novelas de E. M. Forster ( escritor inglês nascido em 1879). Interessante, porque tinha referido igualmente A Passage To India do David Lean para exemplificar a influência, o impacto da natureza de um lugar sobre a natureza humana, em ambos na personagem feminina principal.

Igualmente no IMDB confirmo, como filmes baseados em novelas de E. M. Forster, dois outros filmes, realizados igualmente por James Ivory, de que gostei muito: Maurice e Howards End. Espero ainda pô-los a navegar neste rio...

 

 

 

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publicado às 23:13

A vida das mulheres num mundo essencialmente masculino

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.06.09

 

No meu tempo de colégio em Coimbra, que coincidiu com a Primavera marcelista, gostava de admirar as alunas veteranas do 6º e 7º anos (actuais 10º e 11º), que surgiam, aos meus olhos pré-adolescentes, como personagens romanescas: já tinham um namorado com quem se correspondiam, nesse tempo era assim, e vestiam de forma muito feminina (quando eu vinha familiarizada com o “estilo arrapazado” dos anos 70, das calças no inverno e dos calções no verão, provavelmente influência british no espaço-tempo onde nasci).

Foi a ouvi-las atentamente que fiquei a saber que o seu livro obrigatório no programa de Literatura Portuguesa era o Eurico, o Presbítero, de Herculano, e que um dos livros por elas mais lidos tinha um título muito moral e filosófico: Orgulho e Preconceito.

De tantos livros que vira nas estantes lá em casa nunca tropeçara naquele nem na sua autora, Jane Austen. Estranho... O mais engraçado é que entretanto já vi três filmes baseados em romances seus, primeiro o Emma, a seguir Sensibilidade e Bom Senso e depois este Orgulho e Preconceito e nada de ler os livros.

Portanto, foi pelos filmes que fiquei a conhecer as suas fabulosas personagens femininas. Sim, as personagens femininas de Jane Austen são adoráveis criaturas! Bem, nem todas, claro está, refiro-me apenas às personagens principais. Mulheres inteligentes e muito práticas, responsáveis por si próprias e pelos seus. E que valorizam os afectos de uma forma abnegada e leal. E de um raciocínio estratégico fundamental para poder sobreviver num mundo masculino.

Vi num documentário alguém chamar a atenção para esta característica nos romances de Jane Austen: não se fixa apenas no que é público, no social, mostra igualmente a realidade dos bastidores, da vida familiar, das preocupações financeiras, das dúvidas em relação ao futuro, das vidas das mulheres que procuram manter a qualidade de vida da sua família e a sua imagem ou estatuto social.

 

Neste Orgulho e Preconceito seguimos os acontecimentos pela perspectiva de Lizzie, a segunda filha de um casal brasonado que vive em pleno campoinglês. Além das qualidades geralmente presentes nas personagens femininas de Jane Austen, esta jovem mulher é muito decidida e orgulhosa. Funciona aliás como um pilar da família, mantendo a sensatez que contrasta com a superficialidade da mãe e a irresponsabilidade das irmãs mais novas. Tem uma grande cumplicidade com o pai, o único capaz de reconhecer o seu valor, e uma grande proximidade com a irmã mais velha, a que, das cinco irmãs, consegue conciliar beleza e simplicidade.

 

Um breve intervalo aqui para decidir como irei pegar neste filme de que gosto muito e que revi há dois dias na TVI, à meia noite (estes horários dos filmes na televisão é que não são nada adequados)...

 

Retomo aqui o fio à meada pela forma como, em Jane Austen, as personagens femininas mais interessantes são as que se apoiam mutuamente - as irmãs que são amigas, as amigas que são irmãs. Parte da sua força está nos laços subtis que vão entrelaçando entre si, de amizades que se alimentam com muito respeito e dedicação. Só assim também as suas vidas se podem tornar mais agradáveis e mesmo toleráveis, num mundo essencialmente masculino.

Referi aqui as personagens femininas mais interessantes, as protagonistas, que me parecem funcionar em Jane Austen como modelos que representam valores morais: a coragem, a amizade, a lealdade, a abnegação, a sensatez, a sensibilidade. A sua consistência está precisamente em não serem perfeitas e em terem uma mente autónoma, a consciência da realidade, dos condicionalismos da sua vida. Em algumas vemos o orgulho, noutras a determinação, noutras ainda a timidez. Todas observam o mundo em redor, há uma curiosidade natural pelas pessoas e pelas suas vidas, nenhuma se fecha sobre si própria ou se aliena em ilusões ou fantasias.

As personagens femininas de Jane Austen também são um pilar da família: a filha que se sensibiliza com a ingenuidade da mãe, a filha que se dedica ao pai, a filha que protege a família.

E há as personagens femininas secundárias, as pueris, as superficiais, as egocêntricas, as altivas, as dominadoras, as implacáveis. Todas as variantes de uma natureza feminina numa época tão limitativa para as opções de um percurso interessante.

É aqui que vejo a grande eficácia das mulheres de Jane Austen: para viver naquele cenário masculino, a ginástiva mental e emocional que precisam de treinar! A capacidade de observação e de inteligência prática, para antecipar acontecimentos ou despoletar outros que possam jogar a seu favor!

É certo que Jane Austen se dedica a analisar uma classe social com alguma margem de manobra, não é a vida-escravatura das mulheres sem quaisquer recursos. Mas nesta classe, as mulheres vivem diariamente o medo de perder o seu nível de vida ou de ver a família em dificuldades financeiras. Elaboram constantemente contas de cabeça, rendimentos ao ano, que podem fazer a diferença entre uma vida com algum conforto ou uma vida com muitas privações.

 

Voltando ao Orgulho e Preconceito, o que mais me impressionou:

- o movimento de todo o filme, desliza suavemente sem quebras ou sacudidelas, sem paragens bruscas nem atropelos, perfeito;

- as cenas dos dois bailes: a primeira, pela sua espontaneidade e alegria estonteante, tanto dos que dançam no salão, como nos que se passeiam pela casa, as conversas, os comentários; a segunda, pela coreografia poética, a revelar uma atracção entre aqueles dois aparentemente tão diferentes;

- a forma natural como vamos conhecendo as personagens, pelo seu comportamento e atitude;

- as cenas de bastidores da família Bennet, a forma como se adaptam a diversos registos e a diversas circunstâncias;

- a fotografia, aqueles enquadramentos clássicos, aqueles palacetes, aqueles jardins, o campo inglês...

 

Este é o papel de Keira Knightley, uma Elizabeth encantadora. Mr. Darcy aqui em jovem romântico tímido, mais belo e frágil do que a descrição que dele fazem as outras personagens e outras ainda de um outro filme, You' ve Got Mail, na conversa-duelo daqueles outros dois...

Os homens aqui em diversas paletas: o gentleman e amigo leal, o pai protector-afável e marido tolerante, o oportunista-arrivista, o ambicioso-servil, o ingénuo-carinhoso.

 

Ainda gostaria de voltar, um dia destes, a esta época de vidas simples em tempos difíceis, pela voz sensata de Jane Austen e o olhar poético de Ang Lee, no Sensibilidade e Bom Senso, que tanto me impressionou...

 

 

 

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publicado às 00:51


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